terça-feira, 6 de novembro de 2012

Quando fui a grota de Angico com o mestre Alcino... Por José Cícero*

JC ma grota de Angico-SE com o saudoso Alcino Costa(ao meio) e Bosco André
Que ninguém mais possa acreditar que o perdemos como quem perde simplesmente um pedaço importante de uma estória, um causo, uma epopéia, uma vida inteira... Isso não! Apressado, ele apenas partira  antes de nós. Quem sabe se encantara numa dessas bibocas aprazíveis  dos sertões do mundo. Das coisas que ele amava  e defendia com unhas e dentes.  Ou esteja, quem sabe,  apenas  tirando um cochilo nas sombras dos arvoredos  nos caminhos  que dão pras bandas da sua querida Poço Redondo ou mesmo na sagrada grota de Angico, nas areias do imenso rio...
Com os  olhos do coração haveremos de sentir e vê-lo  de novo, agora eternizado nas palpitantes histórias que seus livros contam. Digamos então, para que todos o saibam: 
- O caipira de Poço Redondo não morrera, apenas despertou para à eternidade! 
Ele é teimoso e ousado. De modo que nunca deixaria o sertão assim tão fácil.
E a vida por seu turno, é assim mesmo. Um longo caminho marcado por uma  sucessão de encontros e desencontros. Nesta eterna marcha, às vezes avançamos, outras vezes ficamos para trás quase sem nos dá conta. O que não se pode no entanto, é nunca desistir desta árdua caminhada.  Porque a marcha da vida nunca cessa. Pois só existe um grande segredo: é caminhar e caminhar...
De Piranhas para a grota de Angico pelo rio São Francisco

Em geral, todos os que trilharam estas veredas ao menos uma vez na vida acreditam inapelavelmente  na possibilidade do grande encontro. A esperança é o que nos move a nunca desistir.
Pelos menos quando pela primeira vez (em março de 2011) segui a trilha na direção da grota de Angico foi assim. Tive a mesma sensação de está viajando na máquina do tempo. Um importante instante de reflexão que fiz acerca da história do cangaço e da minha própria vida; dentro de um cenário típico da caatinga nordestina. Ainda com meus pés molhados com as águas límpidas e divinais do São  Francisco. Tive com este rio, também um encontro dos mais fantásticos e inesquecíveis... E ao meu lado, com seus passos lentos, o mestre Alcino Costa – o velho caipira de Poço Redondo.  Boa conversa, aqui e acolá  entrecortada por uma observação histórica, ou mesmo  uma das suas piada chistosas e apimentadas. 
Aninha  da Petrolina segurava a sua sombrinha. O mestre como sempre estava feliz. E o sorriso largo era por assim dizer, o cartão-postal da sua agradável presença. Também ao seu lado, a sua grande amiga Juliana. 
Sua alegria contagiava todos que estavam a sua volta. Todo o ambiente ficava assim, meio leve e fagueiro com sua presença de espírito.
E assim seguíamos no rumo da famosa grota.

Vez por outra uma parada para um descanso rápido. Perguntei-lhe quantas vezes ele já estivera ali percorrendo o mesmo caminho. E ele me disse: - “pra mais de vinte”. Era de fato, um apaixonado por tudo que dizia respeito à história do cangaço em qualquer parte do Nordeste.
Estava visivelmente cansado pela longa caminhada dentro da caatinga sergipana. Mas não desistira. Muitos como o próprio Severo, decidiram ficar na palhoça às margens do rio.  Oferecera-me  inclusive a câmara.Fiquei assim responsável pelo registro das imagens dali em diante.
Subíamos a trilha íngreme do cangaço sob o sol escaldante de maio.  O velho Chico ficava para trás como um antigo guia com a obrigação de nos levar de volta à bela e histórica cidadela de Piranhas.
Parada rápida para mais uma “fuga” como se diz nos sertões.  Mais uma piada. Uma brincadeira. E de novo prosseguimos até a próxima parada sob a sombra rala dos arvoredos típicos daquele bioma de Sergipe – a pátria agreste do Alcino.
Chegamos, diríamos que todos exaustos. Os homens citadinos por mais que o queiram não estão mais afeitos a caminharem com seus próprios pés dentro dos matos, como assim fizeram seus ancestrais e os próprios cangaceiros dos sertões.
Na trilha para Angico JC logo atrás Alcino Costa, Juliana, Kiko e Ana Lúcia
 A grota estava escaldante. A estiagem a castigara muito mais que no seu entorno. Quase nenhuma sombra se encontrava ali. Todos ficaram literalmente entre pedras. As cactáceas dominavam aquele ambiente quase inóspito, marcado por uma histórica de sangue e tragicidade.
Após alguns instantes o mestre Alcino tomara a palavra. Quase meia hora de rica apresentação ao lado da cruz que indicava aos visitantes o local exato onde morreram o reio do cangaço e sua amada Maria. O local era de fato, a marca literal de uma grande tragédia. E a  própria natureza parecia querer perpetuar aquela sensação imagética de tristeza absoluta.  Depois, Vilela discorreu sobre  a homenagem ao soldado Adrião que também tombara morto no mesmo local..
A camimho de Angico: Alcino, Juliana. Kiko Monteiro e Ana - março de 2011
 Muitas fotografias começaram a ser feitas. Quase todos queriam um registro com o mestre Alcino ao lado do cruzeiro.  Inclusive eu. Entreguei a câmara a um dos companheiros. E lá estávamos prontos para à posteridade: Eu ao lado do Alcino e Bosco André. Eis agora a imagem da minha própria saudade.
Revendo esta foto hoje, sou tomado por um cipoal de lembranças que me invadem a alma, como se fossem a própria enchente do Velho Chico rompendo sem piedade as ribanceiras dos sertões como a nos dizer que também sente  saudade do mestre caipira de Poço Redondo.
Quando navegar de novo as doces águas do rio São Francisco de Piranhas à Angico, sei que me encontrarei com Alcino. E aí haveremos de botar o papo em dia... falaremos de pesquisas, de livros, do Cariri Cangaço, da Aurora, do coronel Izaías e de outras amenidades no sentido de aplacar nossas saudades. 
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