sábado, 23 de março de 2013

Um pouco mais de saudade e poesia do poeta Biu Pereira: Por José Cícero



Fco. Pereira da Silva - o famoso poeta BIU PEREIRA
Cordel do Biu Pereira
Hoje cedo por uma dessas vontades estranhas que vez por outra nos invade a alma me pus a ler,  talvez pela milionésima vez,  o raríssima cordel – “A identidade de um ébrio”, de autoria do inesquecível poeta, violeiro e cordelista missãovelhense – Fco Pereira da Silva - Biu Pereira, já falecido.  Um tanto quanto envelhecido, sobretudo pelo papel jornal em que fora confeccionado, o velho cordel foi um presente a me ofertado pelo próprio vate nos idos dos anos 80 quando  ainda era estudante do ginásio paroquial. 
Nos anos em que  comecei a visitá-lo, de quando em vez, na sua humilde moradia - uma minúscula casinha de taipa, localizada na chamada "baixa do tinguizeiro" meio escondida abaixo da rodovia na entrada da cidade. Logo após a chamada curva da Gameleira na direção de quem vai na direção do Juazeiro.

Numa época em que aquele pequeno 'bairro', era por assim dizer,  também vítima de um imenso preconceito social, visto que ficava contíguo à chama zona do bairro meretrício, ou "cabaré" como se chamava naquele tempo.

Jamais  me esqueço da primeira vez que avistei o poeta, sentado no banco, pernas estranhamente entrelaçadas, tocando viola na conhecida bodega de Chico André.

Estudante adolescente, já tocado por um certo arroubo literário, resolvi escrever algo sobre o poeta, falando do seu  sofrível isolamento, da sua vida, das agruras, da doença e da suas antigas lidas poéticas pelo oco do mundo. A matéria havia sido publicada no jornal ‘A Classe Operária’ informativo  do PC do B editado em São Paulo, mas que recebíamos com certa regularidade.

Lembro-me da peleja e do esforço  que  foi convencermos o saudoso fotógrafo Pio Luna a se deslocar a pé, do centro da cidade até o local onde morava o poeta para fazer a fotografia que ilustraria a tal reportagem.

Recordo-me como se fosse hoje, do poeta posando para a foto: A viola pendurada num toco da parede, como que denunciando o abandono  daquele ambiente. E o velho poeta curvado com seus braços  em cruz sobre a meia porta da sua residência. Estavam lá, além do fotógrafo, Eu, Jesualdo(Dedu), Dedé de Quinco e o também saudoso José Mago. Dedé de Quinco, inclusive,  foi quem  pagara  o preço da foto.

Diante dos inúmeros cordéis que estavam em poder do poeta, resolvemos fazer uma campanha para vendê-los nas ruas e nas escolas. E assim, arrecadarmos um pouco de dinheiro para o velho Biu que estava em dificuldade, sobretudo para comprar os seus remédios. Naquela época, tudo era muito mais difícil. E o abandono em que se encontrava o poeta, já debilitado pela doença que lhe atacava os pulmões e as vias respiratórias, era  algo penoso e lamentável.

Ele fumava com sofreguidão. "Não posso mais adiar o meu encontro com a morte. Por isso não posso deixar de fumar agora", disse-me ele com um certo sorriso amarelo no canto da boca e o cigarro no dedo. Olhando a fumaça, disse me certa feita que era a poesia sua última alegria na vida. Sem ela, o mundo não tinha mais nenhum sentido, dizia.

Muito da sua poesia, era resultante das suas próprias vivências  de cantorias em cantoria pelo mundo, inclusive pelas quebradas da Aurora. Ele falava muito do riacho do Pau Branco onde cantou por diversas vezes em noites enluaradas propícias à fina flor da poesia popular dos nossos sertões. 
Falava da contribuição e da amizade fraterna do radialista  folclorista mestre Elói Teles ante a publicação dos seus cordéis, bem como  da sua participação na rádio Araripe e Educadora do Crato onde fez programas durante alguns anos. Falava ainda, com orgulho e como saudade, do tempo das suas andanças em que fez  parceira com o próprio Patativa e Pedro Bandeira. Dos programas da rádio Iracema do Juazeiro e Salamanca de Barbalha. Da vida boêmia e da saúde que naquele instante lhe faltava.

No meu primeiro livro “Ecos da Saudade”,  lançado em 1993 resolvi fazer-lhe  uma pequena homenagem ao dedicar a ele o poema – Biu sempre Biu. Tanto em Jaguaruana, Granja e Aurora sempre recebi algumas cartas manuscritas pelas mãos do poeta. Algumas tristes e melancólicas, outras alegres e lisonjeiras, inclusive recheadas de poesias. Pela forma como me escrevia, sabia como estava o seu estado de saúde, seu espírito e a sua alma de vate, amigo, humano e valente.

Em 2001 já bastante enfermo e vivendo sob a caridade alheia o Dr. Edilson Santana e a professora Hilma Freira organizaram o livro “Versos Populares: Antologia Poética do poeta Biu Pereira”  contendo o melhor da produção poemática do decano poeta da poesia missãovelhense.

Em virtude das  freqüentes crises de asma que o atacavam, quase não mais recitava os seus improvisos poéticos  como antigamente e, tampouco dedilhava sua viola e nem escrevia seus cordéis. Era triste quando o encontrava nestes 'dias ruins' como ele mesmo chamava. Tinha um poema sobre o cajueiro e o sapo que eu gostava muito quando  recitava de  memória para mim.

A vida me levou para longe. Eis a velha luta pela sobrevivência. Anos depois fui informado por telefone  do desencarne do meu amigo poeta. Tristonho fiquei por vários dias literalmente  de mal com o mundo e com a poesia. Posto que ambos, a meu ver, foram extremamente ingratos e cruéis como o poeta Biu.

Como a vida é má e  hipócrita: Bil Pereira precisou sofrer e morrer para ser reconhecido e ficar famoso...

Entretanto, conforta-me a lídima constatação de que Biu foi poeta e, poeta sendo, viverá eternamente por entre nós.

Viva Bil Pereira! Porque toda poesia sempre será eterna...
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(*) Prof. José Cícero
Secretário de Cultura e Turismo 
Aurora - CE.
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