segunda-feira, 21 de novembro de 2011

QUANDO LAMPIÃO ESTEVE EM AURORA– Por José Cícero





Imagens: 1-Lampião, 2-Fazenda Ipueiras CC/2011, 3- Bando de Isaías Arruda, 4- Bando de Lampião em Limoeiro do Norte/1927, 5 - J. Cícero e equipe da Seculte na cruz - Local onde Massilon assassinou o Guia na Catigueira, 6- M. Severo e participantes do CC/2010 na Ipueiras de Aurora, 7- Cangaceiro Massilon, 8- Cel. Izaías Arruda 9- Fazenda Ipueiras equipe da Seculte no CC-2011.

Estamos nos grotões do município de Aurora – Sul do Cariri cearense. Quase na fronteira com o estado da Paraíba. Início do mês de julho de 1927. Vinte e seis dias depois do malogrado ataque a cidade norte-riograndense de Mossoró. Desde então, Virgulino Ferreira - o Lampião, juntamente com os que ainda restarem do seu bando, luta com unhas e dentes para não ser massacrado pelas volantes interestaduais do CE, RN, PB e PE.

Um verdadeiro exército está a persegui-lo sem trégua. A desproporção é, simplesmente gritante em desfavor do chamado rei do cangaço. Em alguns combates, chegando a incrível razão numérica de 40 soldados para um cangaceiro. Mas Lampião não se entregará. Se caíra na esparrela de uma empreitada enganadora, também haverá agora de sair(por sua conta e risco)o quanto antes dela. Sua perspicácia em rasgar a geografia da caatinga cearense ainda continua sendo a sua maior arma.

O fogo pesado da resistência fê-lo retornar às pressas numa marcha sofrível. Tirando de Mossoró à Limoeiro num fôlego. Exausto nas suas últimas forças lutou como nunca na vida para não sucumbir de vez aos seus inimigos de farda. Estava por assim dizer, desmoralizado, justamente num ataque que lhes disseram ser fácil. Foi ele próprio, a primeira vítima de um grande engodo arquitetado por uma corja de interesseiros. Bandidos piores que os que estavam sob seu comando. Mas não se deu por vencido... Rasgou a caatinga cearense na direção de Aurora como um autêntico vaqueiro conhecedor daquelas bibocas. Desde aquele instante, Izaías passou a ser o Norte na sua cabeça.

Adentrou o território aurorense pelas fímbrias da serra da Varzea Grande seguindo o riacho do Bordão de Velho, Malhada Funda, Riacho das Antas, Coxá, Diamente, serrote dos Cantis até finalmente, alcançar o valhacouto da fazenda Ipueiras - propriedade do seu amigo e sócio de empreitada – o coronel Izaías Arruda de Figueiredo. Imaginara está em segurança. Ledo engano. Seus aperreios estavam apenas começando. Chegara exausto, assim como todos os seus cabras em mais de 30 cangaceiros. Muitas deserções foram registradas ao longo do caminho. Uma marcha que pelo jeito, ainda não havia terminado.

Ansiava angariar o necessário auxílio do coronel, até então seu confiável coiteiro nestas paragens salgadianas. Mas não. Estava desconfiado. Alguma coisa lhe dizia que a Ipueiras não era mais a mesma que deixara dias atrás. Tudo havia mudado, após a humilhante derrota que sofreu em Mossoró. Sabia que agora teria que lutar com muito mais inteligência e denodo. Como era amarga a traição, assim como a solidão após uma derrota. Não haveria de morrer ali depois de tantas guerras. Queria ver o coronel que estava a demorar além da conta. Logo que soubera do fracasso, o velho coronel viajara à Fortaleza para tratar com o governador. Como se viu, mudara de lado ao sabor dos ventos...

Lampião pareceu quase sozinho na face do mundo. Seus amigos de empreitada o traíra. Desde então, pôde perceber que nunca, sequer um daqueles foi amigo de verdade. Ambos se aproximaram por pura ambição ou por medo. Agora, todos a sua volta estavam com o moral sob a rés do chão.

Sabino quase não parava de lamentaar as baixas e jurava vingar o companheiro Jararaca. Massilon emudecera de vez. Antes era todo um falastrão... Quase não havia mais diálogo. As poucas ordens dadas pelo capitão eram diferentes, lacônicas. A euforia de outrora pareceu descer junto as águas do rio Salgado. E muitos dos que estavam ali, de certo modo, também ansiavam descer junto com elas. Comemaça a partir de então uma nova batalha. Uma questão de vida ou morte.

Salvara-se de novo. Primeiro do banquete envenenado a cargo do vaqueiro de Zé Cardoso, Miguel Saraiva, depois, do incêndio da manga e do fogo cruzado dos macacos do major Moisés ajudados pela jagunçada do próprio coronel. Salvara-se milagrosamente pela parede do açude velho. Mas, por que ficara desguarnecida até o corredor que dava para a Malhada Vermelho e o riacho do pau branco? Num ímpeto de raiva, gritara não ser preá para morrer sapecado... Fizera naquele instante mais um inimigo. "Izaías vai me pagar esta desfeita", disse ele. Prosseguiu a passos largos pisando o rumo Oeste.
Os planos do major Moisés Leite de Figueiredo, por sinal, parente do coronel, foi por água abaixo como que de propósito. Quem sabe, 'eles' não desejassem de fato pegar Lampião... Senão, por que pediu ao governador a dispensa das tropas não-cearenses? Por que fora tão negligente nos combates desde a serra da Macambira? Seguido do sítio Ribeiro e agora na própria Ipueiras e no esconderijo do Diamante?
Lampião, contudo seguiu seu rumo. Sabia ele que o grande encontro com o seu destino estava muito mais além. Fez o que estava ao seu alcance para salvar o que restou do seu antigo bando. Ou que restava dele. Malgrado, o cansaço somado a fome e a falta de munição e ânimo dos seus cabras.Os bandoleiros da terra, já não estavam com ele. Deixaram-no tão logo adentraram a região do Bordão de Velho.

A perseguição arrefecera um pouco, ao passo que se distanciavam cada vez mais da cidade, mas não lhe dera trégua. Havia um trem desde a noite do dia 6 a esperar o corpo do bandoleiro na estação. Soldados ainda estavam espalhados em diversas parte de Aurora e região.Talvez dividir-se seria uma opção inteligente e necessária. E foi o que fez.
Massilon estava cabisbaixo, quem sabe com remorso de ter colocado Lampião naquela situação vexatória. Ao ponto de quase ser abatido. Não o deixara na fazenda Letrado no riacho do sangue
(como escreveram depois os jornais). Seguiu-o na direção da Ipueiras até o sítio Brandão onde finalmente se separaram de vez. Homem de palavra, Lampião não lhe demonstrara nenhum ressentimento pelo fracasso. Iria na direção da serra do Góes. A despedida foi um tanto quanto amistosa. Massilon pediu-lhe o guia José Alves, um rapazola do sítio Jatobá e de lá, seguiu para o Sul. Na localidade de Catingueira légua e meia depois, o facínora matou covardemente o jovem rapaz da família Arara.

Até hoje seus familiares não têm dúvida, o primo que ficara com Lampião(sã e salvo) contara todo o caso quano retornou pra casa. Virgulino, ao contrário tratara bem os seus guias, tanto que ao chegar no Cajuí de onde era possível avistar (da ponta da serra) a então vila de Ingazeiras agradeceu-o oferecendo algum dinheiro a Joaquim de Lira, outro que serviu de guia a partir da Boa Vista(da região de vazantes) até os limites do Cajuí pras bandas das Ingazeiras. De lá, o bando transpôs a linha férrea pelas Tropas e Morro Dourado na busca do municípiode Milagres e de lápara Paraíba.
- Que povoado é aquele lá embaixo? - indagou Lampião.
- ali é as Ingazeiras capitão - respondeu o guia.
- Então me diga, como faço pra passar bem longe. Lá deve tá cheia de macacos vindos pela linha do trem.
- De fato, é bem arriscado, capitão...

A pouco mais de 72 horas se safara de mais uma espetacular refrega. Desta feita, na fazenda Ipueiras – justamente o QG onde toda a trama foi organizada com a participação direta e indireta de muitos cangaceiros e potentados regionais, tais como Massilon Leite, Zé Cardoso, Miguel Saraiva, Júlio Porto(representante dos interesses de Décio Holanda do Pereiro), e do mais célebre de todos – o coronel Izaías Arruda, dentre outras pseudo-autoridades que pagaram caro para que ficassem até hoje no anonimato desta história de sangue, traição e poder.

Na pisada de Lampião...

De Aurora, mais precisamente do riacho das Antas, participaram da empreitada do assalto à Mossoró os cangaceiros: Zé Roque, José Cocô, Zé de Lúcio e Antonio Soares(seria este o Asa Branca?) que alguns(poucos) pesquisadores apontaram como o cangaceiro mais jovem e natural da própria Ipueiras. Teria o bando um segundo ‘Asa Branca’ que depois do ingresso receberia outro nome como era comuns aos neófitos?.

Cumpre destacar que no começo de agosto do mesmo ano “O Nordeste”, periódico jornalístico de Fortaleza estamparia em sua capa uma matéria especial em reportagem tratando acerca da suspeição sobre o major Moisés Leite de Figueiredo – comandante geral das tropas dos três estados e parente do coronel. O foco era a suposta facilitação...

A Marcha no território aurorense:

No dia 7 de julho saíram às pressas da Ipueiras. O ziguezague que a partir dali realizou no território aurorense foi algo só digno de um profundo conhecedor da caatinga aurorense. Após a traição de Ipueiras Lampião seguiu para a serra do Góes já na divisa com Caririaçu indo pelas bandas do Pau Branco atravessando o Salgado na altura do sítio Barro Vermelho, passando pelo Jatobá, Brandão e pernoitando em Vazantes.

De lá se dirigiu para a serra dos Quintos e no dia 9 para a serra dos Góes, seguindo pelo riacho da boa vista até a ponta da serra pras bandas do Cajuí. Adentrou o município de Milagres transpondo a linha de ferro na localidade de Morro Dourado ainda em Aurora nas proximidades de Ingazeiras. Ainda, mas adiante passara pela Piçarra onde cangaceiro Sabino foi abatido pela volante de Manoel Neto. Uma outra traição, desta feita do velho Antonio da Piçarra outro ex-coiteiro e amigo de Virgulino. As coisas não estavam 'nada boa'...

Uma volta que envolveu todo o perímetro do território aurorense. Esta estratégia deixou completamente perdidos os que o caçavam a ferro e fogo. Dali conseguiu penetrar sem ser incomodado o estado da Paraíba pela a serra de Santa Inês. Um fino estrategista. Verdadeiro preá das matas.

Na parte II deste episódio trataremos do enigmático incêndio da Ponte do trem da RVC sobre o rio Salgado no localidade de Olho d’água(Aurora) depois da vila de Ingazeiras nas proximidades de Quimami a duas légua de Missão Velha.

O Enigmático Incêndio da Ponte sobre o rio Salgado em Aurora:

Há muita desinformação pertinente a este fato. No livro de Raul Fernandes ( a marcha de Lampião) por exemplo, narra que o incêndio foi obra de Lampião quando(provavelmente) da sua passagem pela proximidade com destina à Milagres e a Fazenda Piçarra e de lá para Serra de Santa Inês e Pernambuco. Outros diziam que o tal incêndio havia sido na ponte do jenipapeiro um pouco antes. Mas não. A ponte era maior: a do olho d’água. E mais: o incêndio foi obra não de Lampião, mas dos jagunços do coronel Izaías Arruda. Em retaliação a um histórico imbróglio deste com os engenheiros da RVC, depois que a ferrovia decidiu romper o contrato com Cel. Izaías sobre a compra de dormentes de madeira extraídos da sua propriedade em face do alto preço, cobrado acima do valor de mercado da época.
(Segue no próximo artigo).

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José Cícero
Professor e pesquisador do cangaço.
Secretário de Cultura
Aurora – CE.
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2 comentários:

vanilda disse...

O que posso dizer além de parabéns?
Só pedir,não deixe a HITÓRIA MORRER NUNCA! Secrétário da cultura, o senhor está fazendo um bem enorme. Talvez nem perceba o quanto tudo isso vale. UM TESOURO AO ALCANÇE DE TODOS.Como seria fantástico se as pessoas soubessem usar a INTERNET.
Vanilda SP.( aurorense)

CARIRI CANGAÇO disse...

Sensacional ! Mestre José Cícero, como sempre nos presenteando com verdadeiras pérolas de nossa história e memória caririense e nordestina, grande abraço ao amigo Adailton e todos de nosso inesquecível Aurora.

Manoel Severo

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