sexta-feira, 3 de maio de 2013

Capela de Santo Antonio da Missão Nova: quando fui criança...

 Por José Cícero
M. Nova: 1º templo católico  do Cariri construído em 1725 pelo portugueses

Quando eu ainda era menino, achava que os morcegos eram autênticos "passarim" criados pelos santos.
Porque no tempo que eu era menino imaginava que todos os morcegos, assim como as andorinhas que eu via moravam no interior da velha e bonita  igrejinha de Santo Antonio. A bela capelinha antiga da vila de Missão Nova, onde eu morava e fui feliz pela primeira vez na vida. 
Apazível e bucólico lugarejo de Santo Antonio, onde eu um dia aprendi e experimentei todos os sentimentos do mundo. Onde todos  viviam em paz. E a felicidade era algo real e não uma utopia distante como agora.

Quando eu era menino; morcegos e andorinhas eram, na minha cabeça ingênua  de criança, os verdadeiros anjos de Deus. Eram por assim dizer, seres divinos e mitológicos que estavam apenas de passagem pela Terra a fim de ajudar os homens e melhorar o mundo. Tanto que, nas novenas do mês mariano eu pensava, lombrigando todos 'eles' rezando diante do altar de Nossa Senhora, bem na frente do santo padroeiro, junto com  a gente.
Eu só imaginava e de repente, lá estavam todas as  imagens de santos, morcegos, anjos e andorinhas povoando a minha mente fértil de criança. 
Para mim todos 'eles' rezavam obedientes e, na ânsia de  agradar o padre e os beatos. 
Naquele instante, todos  deixavam logo  o campanário, a torre, o sótão e iam  imitar os homens durante a missa de domingo. Enquanto as andorinhas lavadeiras rezavam com as mulheres nos festejos religiosos do padroeiro, nos folguedos juninos e no período da semana santa.
Os morcegos do campanário da igrejinha de Santo Antonio, eram devotos fervorosos. Às vezes, junto com as andorinhas, vestiam-se de branco como quem pagassem promessas  para aliviar seus pecados. Os morcegos e as andorinhas também faziam coro durante as orações e benditos. 
Eram obedientes perante as coisas de Deus e até "guardavam os dias gordos", quando novamente vestiam-se com seus mantos. E, quando o padre dizia "amén"; todos eles ficavam em silência e de joelhos.
Nos enterros dos anjinhos inocentes eram os morcegos da capelinha que tocavam os sinos. E os toques eram tristes e lamuriosos. Enquanto que, as andorinhas tocavam durante os enterros das virgens moças e também dos adultons. Era um repicar de sinos lúgubres e chorosos. Um som medievo carregado de saudades e estranhamento. 
Até hoje, nunca mais ouvir quem tocassem sinos tão suaves como aqueles... Recordo que durante a festa do santo padroeiro que acontecia todos os anos, as andorinhas e os morcegos não gostavam muito da banda cabaçal que passava o dia todo tocando ao redor da igreja. 'Eles' não gostavam também dos penitentes, do zabumbeiro, do pifeiro, do fogueteiro, nem tampouco, dos moleques danados exímios atiradores de baladeira.
E todas as tarde, quando a vila se cobria de solidão e silêncio eu corria para a calçada da igrejinha. Queria convesar com os morcegos e as andorinhas. Numa destas, eu me pus a 'curriar' o interior da igrejinha fechada. Até que pela fresta da imensa porta que dava para as bandas do brejo e do engenho de seu Osvaldo, vi Santo Antonio alegremente como que a conversar tranquilo dando conselhos a um bando de andorinhas e de morcegos. 
Fiquei admirado, até que cochilei e dormi um bom pedaço ali mesmo no batente lateral da igrejinha. Quando dei por mim,  a tarde também já dormia e a noite começava a despertar para mais uma lida. Corri como um animal medroso e deseperado. E quando enfim cheguei em casa, contei o que vi para minha mãe.
E ela, em seus intermináveis afazeres domésticos, apenas me mandara secamente criar juízo. Mas eu mesmo assim acreditava no que presenciei.
Por fim, de tanto rezarem a vida inteira, às vezes penso ainda hoje, que todas as andorinhas e os morcegos que ainda existem no mundo, são todos santos.
Tanto que, se por acaso alguém me disser  que 'eles' desapareceram ou que estão extintos, eu apenas lhe direi que todos voaram tranquilamente para os céus. 
Foram para junto de Deus, ou quem sabe, diretamente para os braços misericordiosos de Santo Antonio - o bom padroeiro da minha antiga vila onde vivi e fui feliz quando criança.
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José Cícero
Secretário de Cultura e Turismo
Aurora - CE
Fotos: 1- Diário do Nordeste

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