domingo, 3 de julho de 2011

Era uma vez o “Romãozão”...

Por José Cícero
Local onde um dia existiu o inesquecível campo: 'o Romãozão'



Imagens do antigo "Romãozão" de Aurora. Por último duas equipes que marcaram época: Maguary e 15 de julho.

Era uma vez um antigo campo de futebol do bairro Araçá. Seu nome: Romão Sabiá – ‘O Romãozão’. Sua toponímia representava uma singela e merecida homenagem dos próprios desportistas aurorenses ao então proprietário do terreno que havia mais de cinco décadas franqueado à população, quando a expansão urbana do Araçá começou pela primeira vez a engolir o remoto campo anterior que na época situava-se no quadrilátero onde agora está edificado a agência do INSS.
O antigo Romãozão do Araçá não existe mais. Está agora a integrar o rol das nossas melhores saudades. O ‘romãozão’ agora não passa de uma bela lembrança retumbando forte e intermitente dentro de cada um nós, como o zumbido estridente de uma cigarra a ecoar pelos dias adentro.
Acossado pela voracidade do crescimento urbano e pela especulação imobiliária, assim como o seu antecessor, o ‘Romãozão’ de Aurora não resistiu. Dera-se vencido ao carrasco devorador de tudo - O dinheiro - que às vezes constrói, mas que também destrói coisas belas.

Não teve jeito, o “Romãozão” foi vendido incontinenti. Seu espaço ficou valorizado em face de está bem ao lado da monumental construção da Escola Técnica, cuja inauguração está prevista para breve. Daqui a pouco virará também um canteiro de obras. Máquinas pesadas mudaram a sua velha face e até mesmo a sua topografia original. Seu terreno foi cortado, rebaixado e aterrado em outros pontos. Seu espaço está sendo loteado, vendido aos pedaços para a construção de residências e prédios comerciais. Tudo á serviço do crescimento urbano e do capital financeiro.

No local onde um dia o futebol de Aurora floresceu e desfilou seus craques, agora serão construídas moradias e outras coisas do gênero. A frieza do concreto armado ocupará todos os espaços milimétricos onde um dia, por anos a fio, correu a bola. Onde grandes craques ensaiaram seus primeiro passos na velha utopia de fazer sucesso nos gramados do Cariri e do mundo inteiro.

Uma baixa arena onde renomados atletas d’Aurora e praticantes ocasionais de finais de semana concretizaram seus dribles. Marcaram seus gols, dando corpo a alegria e a emoção de um lance perfeito e uma jogada inesquecível na direção do gol. A emoção dos antigos anos, agora foi cortada em sua carne viva como que com peixeiras amoladas de açougueiros.

O “Romãozão agora é uma saudade imensa a nos transportar além do tempo. Como imenso era o seu espaço destinado aos amantes do futebol amador: jogadores e torcedores vibrando, gritando, xingando e vivenciando na máxima alegria e com lágrimas nos olhos o momento eterno da emoção de ver a bola balançando os fundos das redes adversárias. Aquilo que poderíamos chamar indefinidamente de “instante eterno”, mesmo sendo efêmero como gotas de uma felicidade a se renovar em cada jogo de todos os finais de semana e feriados.

Quantas partidas memoráveis... Quantas jogadas, quanto lances, quantos gritos de gols. Quantos momentos inesquecíveis ocorreram no ambiente festivo e alegre do velho “Romãozão”? Quantas histórias e estórias tiveram como palco o espaço do velho campo.

Quantas disputas acirradas. Quantas decisões. Quantos duelos. Quantas equipes da terra e de fora. Quantos causos ainda hoje são contados... Quantos atletas famosos de Aurora e da região desfilaram seus exímios dotes no chão do nosso querido “Romãozão”?.

Quantos famosos jogadores e ilustres desconhecidos pisaram o solo imortal do velho campo do Araçá: Dr. Bastim, Zé Grande, Simião, Zé Jorge, Pardão, Pedóca, Marinho, Tadeu, Deca Barros e tantos outros grandes jogadores do nosso passado. Nomes como: Camarão, Liro, mestre Hélio, Vicente Isbreck, Leite, Pocino, Semião, Marcos, Dr. Antonio Monteiro, Genésio, Pato, Arimatéia, Pedrão, Déo, Maurício, Petereca, Fantiquinho, Lary Pinto, Borracha, Odilio, Mundinho, Gerson Grande, Marcos, Galegão dentre muitos outros que, inclusive chegaram a pontuar no futebol profissional. Levando assim o nome de Aurora ao além-fronteira por conta da grande contribuição do velho “Romãozão”.

Um manto sagrada e invisível deve está agora a envolver todos os quadrantes deste espaço(agora descampado) onde um dia existiu o inolvidável Romão Sabiá do Araçá – um verdadeiro monumento da nossa história futebolística que viverá para sempre. Uma lembrança, cuja memória permanecerá eternizada em todos quantos de algum modo, viveram direto ou indiretamente a mágica do nosso futebol.

Numa época em que pouca ou quase nada tínhamos de diversão popular e entretenimento social, o “Romãozão” aurorense possibilitou grandes instantes de descontração esportiva. Acontecimentos que hoje não têm preço...Uma memória histórica e afetiva sem tamanho.

Era, por assim dizer, um espaço dos mais sadios e democráticos onde, ao contrário do meio social de outrora, não havia qualquer forma de discriminação. No “Romãozão” todos se tornavam iguais (pelos menos por 90 minutos) por força da magia proporcionada até hoje pelo futebol.

No “Romãozâo” todos permaneciam no mais absoluto pé de igualdade em nome da alegria e da emoção da vitória; toda ela expressa no grito de gol. Num lance de classe efetivado com a maior e mais exuberante das maestrias. Um passe, um lançamento perfeito, uma ginga, uma matada no peito. Um chute forte e direto no ângulo ou rasteiro. Tudo em seguida, resultando no grito de gol... Uma festa. Uma comemoração a que todos os demais se contagiavam de inusitado entusiasmo. Uma verdadeira apoteose que se abatia até por sobre aqueles que sequer assistiram a peleja festejada com gritos, palmas e fogos de artifícios na beira do campo e pelas ruas.

A memória do velho “Romãozão” d’Aurora é tão forte que mesmo com toda a modernidade do novo estádio jamais nos esqueceremos dele...

Viva o “Romãozão”! E que ele viva para todo e sempre nas nossas mais agradáveis recordações. Porque o 'Romãozão' é uma grande história. Uma história construída e protagonizada por gente do povo e, que por isso mesmo, não haverá de morrer nunca.
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José Cícero
Secretário de Cultura, Turismo e Esporte
Aurora - Ce.
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