quarta-feira, 31 de agosto de 2011

AURORA: A questão de 8, o Fogo do Taveira e o dia em que os coronéis Sebastião Pereira e Paulo Gonçalves quase foram mortos por jagunços no Cajuí

Por José Cícero





PARTE 1:
Bando de Jagunços do Cel. Izaías Arruda(fotos de 1926 em Ingazeiras da Aurora)
"Aurora Antiga" - Capela do Preto Benedito - Obra de Arnaldo das Ingazeiras

Uma promessa: Ou o milagre de uma reza forte*

Meados de 1908. Aurora começava a vivenciar uma das fases mais negras e tenebrosas da sua história. Ano funesto que marcaria profundamente a memória de todos quantos sentiram na própria pele aqueles acontecimentos marcados pelo absurdo, brutalidade e ignorância.

Invasão e saque. Apenas isso? Não. Fatos vergonhosos e lamentáveis que como feridas incuráveis até hoje, mesmo depois 103 anos, ainda repercutem aqui acolá como uma enorme cicatriz aberta de uma história ainda não completamente bem contada. O próprio passado como que querendo a todo custo (ainda que tardio) acertar suas contas com o presente.
Ocorrências que, malgrado todo o peso da sua importância até hoje não foram devidamente escritas com a pena lúcida e coerente da verdade. Constituindo desse modo, um grande desafio aos estudiosos e historiadores devidamente comprometidos com a real veracidades dos fatos.

Dentre tantos os acontecimentos ainda não efetivamente descritos na história de Aurora, um em especial, me fora narrado pelo senhor Vicente Jerônimo da Silva. Ex-tabelião do não menos antigo e pioneiro cartório Quezado.

Com base neste fidedigno relato, resolvi concatenar tais informações numa pequena narrativa que ora se segue enfeixada no bojo da série: ‘História que ouvi contar’ em cujo mesmo se incluem como desdobramentos: o fogo do Taveira, a discutível demarcação das minas do Coxá, além da célebre invasão por jagunços que ficara conhecida como ‘a questão de oito’. Tudo isso na ânsia de fazer com que estes fragmentos históricos não venham a ser definitivamente esquecidos pelas gerações(do presente e do futuro) e, tampouco perdidos nas brumas do tempo como tem sido comum diante de uma história escrita, quase sempre, segundo ótica dos poderosos e dos vencedores.

Em última instância, uma iniciativa de puro resgate e preservação da verdadeira história do povo aurorense e, em especial, a dos oprimidos.

1908 - O Começo de tudo...

1908 – Um ano quase cabalar de uma década que poderíamos muito bem chamá-la de perdida. Principalmente para os que a viveram a ferro e fogo. E a duras penas, conseguiram sobreviver a tudo o que ela teve de mais trágico e inusitado.

Um tempo que duraria uma verdadeira eternidade por conta dos crimes e outras atrocidades que se abateram como uma praga terrível que se abateu sobre uma gente humilde e ordeira acostumando demais à lida penosa de uma vida inteira dedicada à agricultura de subsistência, o comércio agropastoril, assim como a produção dos engenhos de rapadura e aguardente. Em especial, a produção de milho, algodão, oiticica, farinha de mandióca e o criatório.

No meio de tudo isso as disputas políticas das mais raivosas, que para não fugir à regra regionalista no mais das vezes, eram decididas na base da bala. Monopolizadas que eram(quase sempre) por duas ou três ramificações familiares que se alternavam no poder conforme a força que conseguiam concentrar(a cada instante) e assim, fortaleciam seu poder de barganha junto às hostes políticas da região e da capital.

Eis aqui, em rápidas pinceladas, o cenário objetivo do que era ou do que foi aquela Aurora antiga e provinciana, escondida do mundo num entreposto naturalmente fincado na porta do Cariri a meio caminho do Juazeiro e Crato e do Icó a Fortaleza. Auge da velha estrada dos almocreves margeando o então caudaloso rio Salgado que por quase dois séculos serviu à ligação do interior com o litoral (Fortaleza, Aracati e Mossoró). Fazendo assim de Aurora, como dissera certa feita o velho Serra Azul: “oásis, rancho e tenda” para os tropeiros viajantes nas suas andanças intermináveis. Verdadeiro caminho da própria colonização do Cariri adentro.

Aurora mais do que qualquer outra cidade da região sofreu em demasia diante da pilhagem e da truculência que sofreu, maldades promovidas muitas vezes pelos que tinham justamente o mister e a obrigação de defendê-la. Era uma vila das mais prósperas de toda a região. Pagou-se assim, o mais alto preço naquela guerra de facínoras contra os humildes e miseráveis – os filhos da pobreza. Razão pela qual completara o poeta do riacho do Pau Branco de que a história de Aurora era de fato, “trágica e tremenda”. E quanto à questão de oito não foi lá muito diferente. Neste episódio em particular, alguns ricos da época também tiveram que arcar com seu quinhão de sacrifício. Foram roubados e humilhados. E caso não fugissem teriam decerto, que pagar com a própria vida... O próprio vate salgadiano tivera que forçosamente se abrigar em Quixadá e de lá derivou definitivamente para Fortaleza.

Uma saga histórica onde se misturaram bandidos, vassalos, heróis e inocentes. O futuro nunca foi tão inacreditável para um povo, como naquele fatídico ano de 8. Uma gente que mesmo em meio as agruras e o sofrimento, devotou a sua própria vida em nome de uma causa nobre: aúnica que lhe parecia possível - a sobrevivência.

Momento difícil de injustiças, crimes deploráveis, superação e heroísmo dos que por sorte, conseguiram sobreviver para contar ao futuro o que de fato aconteceu naqueles tempos tenebrosos de infâmia sem tamanho.

Mas vamos ao que me descreveu o velho Jerônimo – um exímio contador de causos, cuja memória é quase uma enciclopédia de tão lúcida, rica e fértil. Suas histórias e estórias são tão bem contadas, ao ponto de nos dar a nítida e fantástica sensação de estarmos dentro delas. Vivenciando-as assim nos seus mínimos detalhes. Verdadeira viagem ao passado. Um longo mergulho no túnel do tempo.

O tal contador de causos fantásticos empreende tanta ênfase as suas narrativas que às vezes imaginamos ser ele, o próprio protagonista de cada fato e historieta narradas sob o mais autêntico dos entusiasmos – a emoção.

Um grande serviço que, sem sombra de dúvidas, se presta como verdade a nossa própria história. Este seria, por assim dizer, o maior e mais duradouro de todos os seus créditos como memorialista: a verdade.

Como se deu toda a história: Uma viagem.


Uma antemanhã de sábado. De um tempo distante e remoto lá pras bandas de 1908. Começo do mês de dezembro. Aurora ainda era uma vila. Um calmo lugarejo marcado pela tranqüilidade de uma paz bucólica quase cinematográfica e que tinha tudo para ser duradoura. Um povoado esmaecido no âmbar dos dias calmos e morosos com suas horas mortas. Tal como se a própria vida durasse uma eternidade...

Uma época em que a pressa de viver não fazia nenhum sentido prático, notadamente para todos os que experimentavam tranquilamente a lida cotidiana daquele rincão estendido no oco do mundo, quase como um autêntico lenitivo.

Uma madrugada diferente. Era muito cedo e fazia frio. O sol ainda não apontara no horizonte por sobre a serra da Várzea Grande. A sensação era do mais completo vazio expresso num quadro imenso do silêncio. Plena escuridão e quietude. O próprio mundo às escuras, parecia no mais completo vazio absoluto.

A barra do nascente ainda estava escura e um frio intenso parecia cobrir os ares daquela Aurora antiga e paroquial. Pouquíssimas casas, na sua maioria esparsa na primitiva geografia daquela vila, um tanto desajeitada, com destaque apenas para o quadro da matriz onde moravam os mais abastados. Os chamados coronéis, ricos e os remediados da época. Do outro lado, pras bandas do mercado as casas de comércio mais destacadas do major Sebastião Alves Pereira e do coronel Paulo Gonçalves Ferreira.

E naquela madrugada preguiçosa, belas lamparinas iluminavam o velho sobrado construído nos idos de 1800 pelo coronel Xavier então residência dos Gonçalves. Era de cara, a mais imponente das poucas residências daquele tempo. E, que por sinal ainda se encontra de pé até hoje.

O silêncio das poucas ruas de chão batido aos poucos começava a ser rompido pelo som que vinha de longe – cantos de galos(muitos galos) em verdadeiro couro enchiam a madrugada de sonoridade, assim como o coaxar de sapos, bem como o tradicional barulho de cambiteiros, a iniciar a lida do eito dos engenhos de cana que rodeavam o quadrilátero daquela vilazinha bucólica prostrada à margem do Salgado. O rio buscando com suas águas, também fazer sua viagem infinita sempre nos rumos do Jaguaribe.

O sol parecia naquele princípio de dia não estar com pressa para nascer e iluminar o mundo. Pura preguiça em tudo.

As águas límpidas e claras do rio Salgado corriam em disparadas para o Icó em sua absoluta sofreguidão, arrebatando moitas e ribanceiras em todo o seu trajeto. Vinham rompendo tudo a sua frente desde as cabeceiras da nascente situada longe no sopé da serra da Batateira.

Mas o espelho d’água, assim como as pessoas, pouco mais de mil almas(na época), não ais que isso também aguardavam os primeiros raios do sol matutino daquela Aurora distante e sonolenta de uma estranha madrugada de sábado.

Na rua grande e no quadro, ambos de chão batido adornados por grandes moitas de capim de burro onde ficavam os casarões dos coronéis, uma comitiva familiar se preparava para uma viagem. Era o clã dos Quezados e dos Gonçalves – duas das mais importantes e influentes cepas familiares de Aurora, assim como de todo o Cariri Oriental, e que naquela madrugada viajaria até o povoado de Joaseiro. Quem sabe, buscando a proteção segura do padre Cícero Romão Batista. Uma tentativa de se evitar aquele projeto de assalto e insídia a pequena urbe, talvez.

Um presságio? Quem sabe? Antes do pior deixariam a cidade em favor da própria segurança familiar.

(....) CONTINUA...

Não Perca!!

(*) Parte integrante do livro – “Lampião em AURORA... Antes e Depois de Mossoró” (JC/inédito 2011).

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AURORA NO CARIRI CANGAÇO 2011... Por José Cícero

A Trama da Ipueiras e a Invasão de Mossoró


Na fazenda Ipueiras d’Aurora

Toda trama é que foi arquitetada

O coronel Izaías foi mentor

Só por isso emprestou dinheiro e arma.

Massilon muito esperto incentivou

Afirmando ser tão fácil a empreitada

Lampião mesmo assim desconfiou

Mas rendeu-se sem temer aquela causa

finalmente ordenou: 'Vamos cambada!

com os cabras da Aurora não tô só':

Zé de Lúcio, José Roque, Zé Cocô

Antonio Soares, Zé Cardoso e Miguel Saraiva,

Tava feito finalmente o complô

Para a célebre invasão de Mossoró.

Derrota que a Lampião custou

a vida de colchete e Jararaca.

(*) JC

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segunda-feira, 29 de agosto de 2011

BOFF NO CARIRI...

A Passagem de Boff pelo Cariri...


Uma revolução ainda por fazer

Toda mudança de paradigma civilizatório é precedido por uma revolução na cosmologia (visão do universo e da vida). O mundo atual surgiu com a extraordinária revolução que Copérnico e Galileo Galilei introduziram ao comprovarem que a Terra não era um centro estável mas que girava ao redor do sol. Isso gerou enorme crise nas mentes e na Igreja, pois parecia que tudo perdia valor. Mas lentamente impô-se a nova cosmologia que fundamentalmente perdura até hoje nas escolas, nos negócios e na leitura do curso geral das coisas. Manteve-se, porém, o antropocentrismo, a idéia de que o ser humano continua sendo o centro de tudo e as coisas são destinadas ao seu bel-prazer.

Se a Terra não é estável –pensava-se – o universo, pelo menos, é estável. Seria como uma incomensurável bolha dentro da qual se moveriam os astros celestes e todas as demais coisas.

Eis que esta cosmologia começou a ser superada quando em 1924 um astrônomo amador Hubble comprovou que o universo não é estável. Constatou que todas as galáxias bem como todos os corpos celestes estão se afastando uns dos outros. O universo, portanto, não é estacionário como ainda acreditava Einstein. Está se expandindo em todas as direções. Seu estado natural é a evolução e não a estabilidade.

Esta constatação sugere que tudo tenha começado a partir de um ponto extremamente denso de matéria e energia que, de repente, explodiu (big bang) dando origem ao atual universo em expansão. Isso foi proposto em 1927 pelo padre belga, o astrônomo George Lemaître o que foi considerado esclarecedor por Einstein e assumido como teoria comum. Em 1965 Penzias e Wilson demonstraram que, de todas as partes do universo, nos chega uma radiação mínima, três graus Kelvin, que seria o derradeiro eco da explosão inicial. Analisando o espectro da luz das estrelas mais distantes, a comunidade científica concluiu que esta explosão teria ocorrido há 13,7 bilhões de anos. Eis a idade do universo e a nossa própria, pois um dia estávamos, virtualmente, todos juntos lá naquele ínfimo ponto flamejante.

Ao expandir-se, o universo se auto-organiza, se auto-cria e gera complexidades cada vez maiores e ordens cada vez mais altas. É convicção de grande parte dos cientistas que, alcançado certo grau de complexidade, em qualquer parte, a vida emerge como imperativo cósmico. Assim também a consciência e a inteligência. Todos nós, nossa capacidade de amar e de inventar, não estamos fora da dinâmica geral do universo em cosmogênese. Somos partes deste imenso todo.

Uma energia de fundo insondável e sem margens – abismo alimentador de tudo - sustenta e perpassa todas as coisas ativando as energias sem as quais nada existe do que existe.

A partir desta nova cosmologia, nossa vida, a Terra e todos os seres, nossas instituições, a ciência e a técnica, a educação, as artes, as filosofias e religiões devem ser resignificadas. Tudo e tudo são emergências deste universo em evolução, dependem de suas condições iniciais e devem ser compreendidas no interior deste universo vivo, inteligente, auto-organizativo e ascendente rumo a ordens ainda mais altas.

Esta revolução não provocou ainda uma crise semelhante a do século XVI, pois não penetrou suficientemente nas mentes da maioria da humanidade, nem da inteligentzia, muito menos nos empresários e nos governantes. Mas ela está presente no pensamento ecológico, sistêmico, holístico e em muitos educadores, fundando o paradigma da nova era, o ecozóico.

Por que é urgente que se incorpore esta revolução paradigmática? Porque é ela que nos fornecerá a base teórica necessária para resolvemos os atuais problemas do sistema-Terra em processo acelerado de degradação. Ela nos permite ver nossa interdependência e mutualidade com todos os seres. Formamos junto com a Terra viva a grande comunidade cósmica e vital. Somos a expressão consciente do processo cósmico e responsáveis por este pedaço dele, a Terra, sem a qual tudo o que estamos dizendo seria impossível. Porque não nos sentimos parte da Terra, a estamos destruindo. O futuro do século XXI e de todas as COPs dependerá da assunção ou não desta nova cosmologia. Na verdade só ela nos poderá salvar.

Leonardo Boff com Mark Hathway escreveram The Tao of Liberation:exploring the ecology os transformation,N.Y.2010.w
Fonte: blog Cariricaturas.

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